terça-feira, 27 de outubro de 2009

A mulher e o cabelo


Eu, meus cabelos e minha cerveja

Outra sugestão para meus escritos, que acato com mucho gusto: mulheres e sua relação com os cabelos (próprios e das outras), uma coisa, assim, no mínimo, delicada. Os meus, por exemplo. Gosto deles, acho que são legais. Só que poderiam ser menos volumosos, ou com os cachos mais definidos. Poderiam não ficar horrorosos depois de uma ventania (seria a glória). Neste caso, a solução é prendê-los. Odeio o vento. Odeio as horas que passam e deixam meus cabelos feios, embora os homens ao meu redor jurem que não notam a diferença. Aposto que notam.

Para domá-los, lavo todos os dias, e com xampu e condicionador que hidratem bem. Penteio, apenas nessa hora. Passo um leave-in. Passo uma mousse modeladora, em seguida. Enxugo com a toalha, modelando os cachinhos. Daí por diante, NINGUÉM pode tocar nos meus cabelos até que eles sequem. Nem depois que secam, aliás. Porque senão eles ficam feios. Uma coisa tipo Gal Costa. Sempre achei aquele cabelo mulher-desquitada-nos-anos-80 horrível.

Cuido muito do cabelo, e só corto com pouquíssimos eleitos. Corto pouco, porque acho que fico mais bonita com o cabelo grandão. Médio também não presta – ou curto, ou enorme, senão fico feia. Não tenho a menor intenção de ficar feia, nem hoje, nem nunca. Quero ser uma velhinha lindinha. Minha amiga Anna Paula tem um cabelo lindíssimo, maravilhoso, e está inventando de cortar. Sou contra. Tô numa fase assembléia de Deus.

De vez em quando, vario, e faço uma escova. Fico bonita, gosto do resultado. Mas também gosto dos cachos, a versão preferida do meu maridón, que acha o liso “lambido”. Ele fica danado porque não pode tocar no meu cabelo. Nunca. E me chama de louca. Uma cabelereira queria me convencer a fazer escova inteligente. Não fiz. Inteligentes são as variações sobre o mesmo tema. No vento, prefiro segurar o cabelo do que a saia. Sei, estou quase surtando. Mas vale a pena, quando olho no espelho e acho que não estou parecida com a Gal Costa. Melhor é parecer comigo mesma.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Esquisitices

É fato que às vezes sou um tanto esquisita. Tenho vergonha pelos outros (não vejo programas do tipo Ídolos por isso. Detesto ver gente sendo humilhada por vontade própria), ojeriza a telefone, horror a movimentos gregários (clubes, associações, sindicatos, grupos de leitura – MEDA!). Também não faço caridade ou voluntariado, nem vou a passeatas. Visito pouco a minha avó, e ela cobra mais atenção. Os únicos grupos organizados dos quais faço questão de fazer parte são os blocos de carnaval.
Sou assim, não adianta forçar a natureza. Por outro lado, adoro juntar gente e tenho muitos amigos queridos, tão queridos como podem ser os amigos. E é ótimo quando a gente se encontra, ri da vida, e só. Ficamos felizes, no commitment. Ô, delícia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Por que...

Homens fazem barulho ao comer?
Mulheres gordinhas usam calças apertadas demais?
A fila do Bompreço sempre empaca na sua vez?
As baratas existem?

Há coisas que não se explicam, afinal.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Minha alma é irmã de Deus ou Caim?

Carrero e Saramago discutem (metafisicamente, já que o nosso Raimundo apenas comentou o que lhe pediram para comentar) sobre Deus, bíblia, bondade, maldade. Brilhantes, os dois, terminam reproduzindo o que sole acontecer em toda discussão sobre ateísmo ou crença: quem analisar o discurso deles, com cuidado, vai perceber que toda água corre pro mar, neste caso. Notem que Saramago, em seu novo livro, questiona a maldade contida na bíblia e a suposta bondade divina. Ué? Deus não era uma abstração, uma criação humana? Somos, todos nós, seres pensantes (os que assim merecem ser classificados) céticos e místicos a um só tempo.
Duvido de tudo. Mas peço a benção a meu orixá enquanto uso a medalhinha de Santo Antônio que uma baiana me deu em São Paulo. Saravá, amém, que toda ajuda é bem vinda!

domingo, 18 de outubro de 2009

The True


Foto: Eu e Ju - amor de verdade

Fui buscar uma tacinha de Amarula na geladeira porque sobre um tema desses não dá pra falar assim, cheia de realidade. Já tinha tomado uns chopes no Neno, e achei que era necessário abrir um tantinho mais a consciência pra discorrer sobre o tema proposto por Paulinho, que hoje mora a milhas e milhas de nós, lá em Santiago do Chile. Dia desses, ele estava brabo, danado com seus amigos chilenos, pés no chão além da conta, segundo consta. “Sinto falta dos meus amigos daí”, disse, “e queria que tu falasse sobre verdade, essa coisa tão complicada”. Acho que foi mais ou menos assim que foi feito o pedido, talvez com ligeiras variações no texto. Ele lembrou de Foucault e de seus estudos sobre a Verdade, que o deixaram “bem doido”.

Bom, vamos lá. Sou jornalista, e na minha profissão a gente lida o tempo todo com esse conceito. A princípio, deveríamos tratar apenas com fatos ditos “verdadeiros”. Sempre digo a meus alunos que verdade, pra nós, é a adequação do enunciado aos fatos. Tudo além disso é filosofia ou interpretação subjetiva, e não cabe no jornalismo. Será? Na prática, sabemos que o próprio conceito de notícia está entremeado por decisões de caráter pouco objetivo, relacionadas mais ao que o escriba/repórter/editor carrega consigo enquanto sujeito, ou enquanto parte de um sistema maior que ele, que aos fatos propriamente ditos. Isso faz o meu chefe subir pelas paredes, mas, no fundo, aposto que ele sabe que a engrenagem engloba a todos nós, não apenas aos jornalistas e agregados.

Contraditoriamente, a verdade das coisas, para as pessoas, está muitíssimo ligada aos desejos. Nosso olhar é dirigido e embaçado, por nós mesmos, no mais das vezes. O que não significa que ele é menos verdadeiro que o do Outro, afinal. Apenas diferente, particular. Complicou? É complicado mesmo. Mentir é dizer o contrário da verdade, mas não raro fazemos e dizemos coisas consideradas, a princípio, excludentes (se uma é verdadeira, a outra é falsa, e vice-versa), sem que necessariamente estejamos sendo não-verdadeiros. É verdade que às vezes quero que minhas filhas esqueçam que eu existo e parem de repetir “mamãe” ad infinitum. É verdade que não posso passar muito tempo, nem alguns minutos, sem saber onde elas estão e o que estão fazendo.

Tudo seria mais simples se não estivéssemos tão socialmente engessados. A mente e o coração permitem mais variações e combinações que querem nos fazer crer. Segundo Foucault, para nós, sujeitos, a verdade seria um mecanismo do qual dispomos para preencher o vazio que constitui nosso pensamento finito, ou a justificação racional que elaboramos para compreender nossas práticas cotidianas, ou ainda o escudo protetor que adquirimos diante das vicissitudes que nos ameaçam. Muito mais complexo, então, que apenas não mentir.

Falar tudo que vem à mente, sem censura, poderia, então, transformar alguém em “sincero”, pois não? Duvido. Rompantes de raiva podem nos fazer dizer coisas que não sentimos (sempre), só para ferir e magoar o outro. Você diz “te odeio”, e naquele momento essa é a mais pura expressão da verdade. Horas depois, o mesmo ódio vira só mágoa e saudade. De onde deduzimos que é impossível expressar a verdade apenas com as palavras, por mais que elas sejam muitas, por mais largo que seja nosso vocabulário. No mais das vezes, sem querer ser determinista, creio que a verdade é absolutamente silenciosa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

El Duende


Foto: Show na Casa de La Memoria, em Sevilla

Marido, meu companheiro em todas as viagens, me pede para escrever sobre o flamenco. Sobre o que sinto ao dançar, sobre o que é esse danado desse “duende” – dizem que quem tem duende é capaz de bailar, de fato; quem não tem, pode até se esforçar, mas não chega lá. Seria, assim, uma espécie de borogodó cigano. Não sei se tenho el duende. Gostaria muito de tê-lo.

Só sei que, quando danço, não enxergo pelo retrovisor. Só vejo e sinto o movimento, escuto a música e vou. Ainda hoje, depois de tanto tempo em contato com o baile, não paro de me emocionar com a percussão do cajón, e ver dançar alguém que sabe o que está fazendo me arrepia o corpo, literalmente. Muitas vezes tive vontade de chorar ao assistir a um espetáculo.

Minha experiência mais desconcertante nesta seara aconteceu quando fiz um workshop com Rafaela Carrasco, bailarina espanhola. Fiquei besta com ela – as marcações ditas em castellano, o jeito de começar a aula, sem fazer nada de alongamento ou de aquecimento, as mãos, a postura. Incrível.

Foram sete dias de exercícios diários e intensos, difíceis, pés e joelhos esfolados e uma tristeza grande no peito na hora de ir embora. Marido, que estava lá comigo, brigou – “nada a ver tu ficar assim. Pensa que valeu a experiência”. Mas eu só pensava que estava acabando... E ia sentindo aquele frio no estômago que a gente sente quando um namoro está pra terminar, quando você perde seu filho na praia, quando o carro fica na reserva no meio do engarrafamento.

Graças a Camarón, estou de volta. Descolei novas companheiras de baile e sigo castigando os tablados por aí. Olé!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Como Deus quiser

Carlinhos, colega e amigo, insiste para que eu fale de horóscopo no blog. Relutante a princípio, sucumbi agora, depois que ele passou a fazer do pedido um mantra. Com este texto, aliás, inauguro uma fase nova: escreverei, de fato, “a pedidos”. Mandem os motes e eu vou escolher um tema para falar sobre, a partir das sugestões dos nobres leitores.
Bom, vamos aos horóscopos. Não servem pra nada, a princípio, até porque, como diz o samba, “o amanhã será como Deus quiser”. Mas a gente lê. Eu, pelo menos, leio. Nunca concordo com o que leio, mas sigo tentando descobrir algum sinal naqueles escritos. Vai que dá certo... Gosto de saber sobre as características dos signos – sou sagitário, e me identifico com um monte de coisas que os astrólogos dizem sobre gente de sagitário.
Áries, por exemplo. Pessoas mandonas, briguentas, mas com grande coração. Gosto delas. Touro – minha filha mais velha: teimosa, tagarela, cheia de argumentos. Leão – minha filha mais nova: ciumenta, falante, gosta de palco e platéia. Aquarianos são ousados, pacientes, amorosos, à frente do seu tempo. E segue por aí...
Quanto a prever o futuro... Será que ia ser bom? Pra que saber das desgraças antes da hora, pra sofrer por antecedência? E das coisas boas? Que sem graça. Bom é ir vivendo e pulando os obstáculos, ficando feliz com o que acontece de bom. Senão, ninguém ia sair de casa pra ver futebol - quer coisa mais imprevisível? Se o caminho fosse conhecido, a gente deitava, dormia e esperava chegar o fim dele. Boa mesmo é a trajetória.