
Foto: Show na Casa de La Memoria, em Sevilla
Marido, meu companheiro em todas as viagens, me pede para escrever sobre o flamenco. Sobre o que sinto ao dançar, sobre o que é esse danado desse “duende” – dizem que quem tem duende é capaz de bailar, de fato; quem não tem, pode até se esforçar, mas não chega lá. Seria, assim, uma espécie de borogodó cigano. Não sei se tenho el duende. Gostaria muito de tê-lo.
Só sei que, quando danço, não enxergo pelo retrovisor. Só vejo e sinto o movimento, escuto a música e vou. Ainda hoje, depois de tanto tempo em contato com o baile, não paro de me emocionar com a percussão do cajón, e ver dançar alguém que sabe o que está fazendo me arrepia o corpo, literalmente. Muitas vezes tive vontade de chorar ao assistir a um espetáculo.
Minha experiência mais desconcertante nesta seara aconteceu quando fiz um workshop com Rafaela Carrasco, bailarina espanhola. Fiquei besta com ela – as marcações ditas em castellano, o jeito de começar a aula, sem fazer nada de alongamento ou de aquecimento, as mãos, a postura. Incrível.
Foram sete dias de exercícios diários e intensos, difíceis, pés e joelhos esfolados e uma tristeza grande no peito na hora de ir embora. Marido, que estava lá comigo, brigou – “nada a ver tu ficar assim. Pensa que valeu a experiência”. Mas eu só pensava que estava acabando... E ia sentindo aquele frio no estômago que a gente sente quando um namoro está pra terminar, quando você perde seu filho na praia, quando o carro fica na reserva no meio do engarrafamento.
Graças a Camarón, estou de volta. Descolei novas companheiras de baile e sigo castigando os tablados por aí. Olé!